Música, Alzheimer, e a visão Transdiciplinar de Cuidado

Há quase 20 anos atrás, meu pai apresentava os primeiros sinais do Alzheimer. Na época, tínhamos informações limitadas sobre a doença e condutas clinicas mais conservadoras. Hoje, apesar de ainda não existir uma cura definitiva, as descobertas cientificas avançaram, e soluções terapêuticas se mostram capazes de retardar o avanço do quadro. Abordagens multidisciplinares, podem atenuar sintomas e proporcionar melhora na qualidade de vida aos pacientes de hoje. Neste contexto, a musicoterapia, prática integrativa reconhecidas pela OMS, oferece uma nova visão, promovendo a saúde mental, com protocolos de reabilitação e cuidado, numa perspectiva complementar de assistência. No artigo desta semana, a intenção é compartilhar o resultado de uma jornada de conhecimento sobre o tema, por uma via integrativa e transdisciplinar de um grupo acadêmico que se dedicou amorosamente à essa jornada de estudo.
Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva, que resulta na perda gradual da memória, do raciocínio e capacidade de realizar tarefas cotidianas, de forma independente. A OMS prevê que até 2050, a demência alcance 153 milhões de pessoas no mundo, triplicando números atuais.
Diante desafios e a necessidade de soluções inovadoras de saúde, abordagens integrativas surgem como alternativa, para complementar tratamentos e manejar os sintomas. Uma das abordagens integrativas é a musicoterapia, linha de cuidado segura nos quadros de demência.
"Do ponto de vista neurobiológico, os benefícios da musicoterapia decorrem de três mecanismos principais: a estimulação da neurogênese e da neuroplasticidade no hipocampo; a liberação de dopamina pelo sistema de recompensa cerebral, contribuindo para retardar o declínio cognitivo; e a modulação do sistema imunológico, e neuroendócrino, reduzindo processos inflamatórios associados ao estresse crônico — que é uma das hipóteses centrais sobre as causas da doença de Alzheimer", conforme artigo científico da plataforma PUBMED, em 2022. (DOI: 10.1111/nyas.14864).
As terapias farmacológicas disponíveis, atuam de forma especifica, sem reverter o curso da doença. Práticas complementares, como a musicoterapia, oferecem uma oportunidade adicional para atenuar sintomas - e sem contraindicações, pautada na prática clínica baseada em evidência.
A resposta do cérebro à estimulação musical não é apenas psicológica. É neuroquímica e estrutural. A literatura científica recente aponta efeitos promissores da música no tratamento de demência. Murilo Brito (Musicoterapeuta do Hospital Placi), citou em entrevista, a importância da identidade sonora, da aplicação clínica da música para estimulo da memória e acolhimento, favorecendo as funções executivas e a integração social do paciente.
Nos últimos meses, a partir de uma experiência colaborativa, desenvolvida em parceria com profissionais de diferentes áreas, foi criada uma solução pautada nesta abordagem. ECOAR NA MENTE, é um produto nascido da cultura maker alinhado à praxis de saúde. Inspirado em pesquisa, discussões de caso, entrevista com especialista e relatos de experiência em grupo de estudo, esse ideal extravasou.
A solução, foi concebida alinhada às diretrizes de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde. Também foi inspirada na jornada multisensorial - como propõe a Terapia Shinrin Yoku (Banho de Floresta) - com estimulação de sentidos. O resultado mais valioso aconteceu no movimento colaborativo, nas reuniões de trabalho, nas memórias e descobertas.
Obrigada ao meu grupo de estudo em Percepção e Memória.
Um diagnóstico serve somente para nortear o cuidado, mas não determina a forma do paciente ocupar o mundo. A diferença na atenção ao paciente está na maneira como cuidamos e conciliamos seu bem-estar à experiência de vida, mesmo existindo limitações. (Ecoar na Mente – Direitos Reservados)
Agradecimentos:
- Orientação: Dra. Daniele Andrade da Silva (Docente e Doutora em Psicologia)
- Especialista: Murilo Brito (Entrevistado - Musicoterapeuta no Hospital Placi)
- Grupo de Estudo: Beatriz Novaes, Debora Campos, Duci Corrêa, Emilene Camara, Fernanda Souza, Flávia Dutra, Hermes Ricardo, Ingrid Nunes, Karolline Rodrigues , Lucas Matta , Sara Dias.